segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Crônicas do Professor Altair Malacarne - Sapucaias.



SAPUCAIAS
  
Quem vai de Vila Pavão para Todos os Santos, no noroeste capixaba, agora nesse meio de primavera, se prende no vermelho das folhas dumas árvores que sobressaem nos capões de mata sobreviventes de nossa hileia capixaba; não são flores; e a brotação que vai se esverdear quando as águas do verão, cada vez mais escassas, caírem para perfumar e engravidar um solo que já foi muito maltratado; verdes elas curtirão as inclemência e benesses das horas para garantir à arvore a produção de castanhas muito gostosas e caprichosamente encapsuladas dentro de um coco que vai despencar quando os ditos civilizados , sucessores dos  macacos e índios,  poderão aproveitá-las ‘in natura’ em na cozinha.
Os tupis-guaranis viram nessa magia o motivo pra lhe darem o nome de SAPUCAIA, um ninho de galinha, com ‘ovos’ prontos para consumo  misteriosamente embalados; anualmente ainda se pode fazer a colheita dos frutos nos poucos endereços que sobraram no seu ‘habitat’ preferido, em algum vale do norte dos Espírito Santo ou sul da Bahia; depois de fazer a diferença no antes imenso verde exuberante, ela fecha um ciclo de vida dando-se ou brotando em reprodução sucessiva; e assim será sempre até seu fecho no tempo, que poderá acontecer como já foi muitas vezes, por um ato desvairado ou a fim de se obter boa madeira pra produção  de construções de habitação  ou contenção nas propriedades; e aí, o vermelho do verde será menor, já é menor.


Altair Malacarne - SGP, 27.10.2013






Crônicas do Professor Altair Malacarne - Mofofô.



MOFOFÔ


Em 1948, Heitor Alencar, um madeireiro de Colatina, botou a 1ª linha de transporte coletivo de passageiros entre Colatina, já capital da Região Noroeste do ES,  São Gabriel da Palha e Nova Venécia.  No trajeto, ela passava pelo córrego Sabiá de baixo, onde moravam  as famílias  Dalfior e  Pedruzzi. Ali morava também o ‘MOFOFÔ”.

Naquele tempo, eram 3 os responsáveis pelos serviços no veículo de transporte dos passageiros:
1.      O motorista (‘chofé').
2.      O trocador(também chamado ‘condutor’).
3.      O bagageiro (encarregado de acomodar as bagagens sobre o ônibus).

Mofofô era o homem das bagagens. HOMEM, ou quase homem. Baixinho, magrelo, feio. Tinha, de nascença,  uns  olhos que quase não se abriam. Parecia um chin mal feito. Parecia um mofofô, um gongolo sem olho que dá no pau podre. O pessoal gritava: ‘ABRE O’ZÓI MOFOFÔ!!!...”. Usava óculos escuros pra disfarçar. No tempo das chuvas, era o primeiro a arregaçar as mangas da camisa e raspar o barro para desatolar o carro.

Amigo de todo mundo, batia no teto da carruagem para que parasse e atendesse alguém à beira da estrada. 

Nem sempre era um passageiro, mas alguém encomendando um remédio ou querosene.

Nas cabeças da ponte de Colatina, havia 2 guaritas que comandavam a alternância de sentido do tráfego em pista única. O carro parava, Mofofô descia pela escada de ferro parafusada atrás do veículo, se postava na sua frente e, com o boné, saudava um por um os veículos que vinham em sentido contrário.  Depois vinham as compras das encomendas. Ao final do ano, sempre havia as ‘festas’ e ele se desvelava ainda mais.

Muitos anos depois, eu o encontrei pelas ruas de Colatina, vivendo modestamente, como sempre. Andava arrastando os pés, levantando sempre mais a cabeça para conseguir ver os objetos à sua frente. Passava devagar, cumprimentava minha mulher e seguia seu caminho. Caminho que era a continuação de tantos outros percorridos no passado;  ele ainda habita no cantinho da memória dos antigos moradores da linha pioneira;  Mofofô é imortal.


Altair Malacarne, 30.08,  24.10 e 26.10.2013